O presente trabalho analisa a disciplina da responsabilidade civil de médicos e
hospitais no direito brasileiro em razão da iatrogenia. Inicia a análise abordando as
variadas dimensões do tratamento de saúde, considerado enquanto direito,
enquanto produto e enquanto ofício, tendo como norte as discussões sobre o poder
médico, sobre a perspectiva da morte na modernidade e sobre as implicações
bioéticas a serem observadas. Continua trazendo uma visão panorâmica sobre as
regras gerais de responsabilidade civil, com ênfase nos modernos fundamentos para
a responsabilização e na atual fluidez dos critérios para responsabilização e de
responsabilidade civil dos médicos e hospitais, inclusive vinculados ao Poder
Público, ressaltando a importância da natureza das obrigações assumidas no âmbito
do tratamento de saúde para esta responsabilização, de meios ou de resultados.
Continua abordando sobre a iatrogenia em si e sua correção com os fenômenos da
medicalização da vida, da força simbólica da medicina, da tecnologização da
sociedade e do incentivo à segurança do paciente, e delimita o conceito de
iatrogenia para abranger apenas os danos decorrentes da atuação médica/hospitalar
isenta de erro. Na sequência, defende que o que legitima os danos iatrogênicos
previstos, que sempre ocorrem no curso do tratamento de saúde, é o consentimento
do paciente/lesado, após prévio esclarecimento, e trata sobre as limitações à
obtenção deste consentimento e ao fornecimento de informações no contexto
clínico. Defende, ainda, que o que legitima os danos iatrogênicos previsíveis é a
assunção dos riscos do tratamento pelo paciente, abordando a questão dos riscos
inerentes ao empreendimento saúde e à concorrência entre os riscos assumidos
pelo paciente e pelo hospital, cabendo a este a responsabilidade decorrente dos
riscos extraordinários impostos ao paciente, com base na teoria do fortuito interno.
Continua analisando a responsabilidade civil em razão de danos iatrogênicos
decorrentes de medicamentos e produtos para a saúde em geral e conclui pela
possibilidade de responsabilização do médico e do hospital por danos iatrogênicos
tanto em razão de falhas no processo de obtenção do consentimento quanto em
razão da imposição de riscos extraordinários ao paciente alheios àqueles inerentes
ao próprio tratamento de saúde.
This paper analyzes the discipline of civil liability of doctors and hospitals in Brazilian law due to iatrogenesis. It begins the analysis by approaching the varied dimensions
of health treatment, considered as a right, as a product and as a profession, having
as a guide the discussions about medical power, about the perspective of death in
modern times and about the bioethical implications to be observed. It continues to
provide a panoramic view of the general rules of civil liability, with an emphasis on
modern grounds for accountability and the current fluidity of the criteria for
accountability, and of civil liability of doctors and hospitals, including those linked to
the Public Power, stressing the importance the nature of the obligations assumed in
the scope of health treatment for this accountability, means or results. It continues to address iatrogenesis itself and its correction with the phenomena of the
medicalization of life, the symbolic strength of medicine, the technologization of
society and the encouragement of patient safety, and delimits the concept of
iatrogeny to cover only the damage resulting from the performance error free medical
/ hospital care. In the sequence, he defends that what legitimizes the predicted
iatrogenic damages, which always occur in the course of health treatment, is the
consent of the patient / injured person, after previous clarification, and deals with the
limitations to obtain this consent and the provision of information in the clinical
context. It also defends that what legitimizes the foreseeable iatrogenic damages is
the assumption of the risks of treatment by the patient, addressing the issue of risks
inherent to the health enterprise and the competition between the risks assumed by
the patient and the hospital, with the latter being responsible for the resulting of the
extraordinary risks imposed on the patient, based on the theory of internal
fortuitousness. It continues to analyze civil liability due to iatrogenic damage resulting
from drugs and medical materials / equipment and concludes that the doctor and the
hospital can be held responsible for iatrogenic damage both because of failures in
the process of obtaining consent and because of the imposition of risks extraordinary
to the patient, unrelated to those inherent to the health treatment itself.
Cet article analyse la discipline de la responsabilité civile des médecins et des
hôpitaux en droit brésilien en raison de l'iatrogénèse. Il débute l'analyse en abordant
les dimensions variées du traitement de santé, considéré comme un droit, comme
produit et comme profession, en ayant pour guide les discussions sur le pouvoir
médical, sur la perspective de la mort dans les temps modernes et sur les
implications bioéthiques pour être observé. Il continue de fournir une vue
panoramique des règles générales de la responsabilité civile, en mettant l'accent sur
les motifs modernes de responsabilité et la fluidité actuelle des critères de
responsabilisation, et de la responsabilité civile des médecins et des hôpitaux, y
compris ceux liés au public. Pouvoir, soulignant l'importance de la nature des
obligations assumées dans le cadre du traitement de santé pour cette responsabilité,
moyens ou résultats. Il continue d'aborder l'iatrogénèse elle-même et sa correction
avec les phénomènes de médicalisation de la vie, la force symbolique de la
médecine, la technologisation de la société et l'encouragement à la sécurité des
patients, et délimite le concept d'iatrogénie pour ne couvrir que les dommages
résultant de la performance. soins médicaux / hospitaliers sans erreur. Dans la
séquence, il défend que ce qui légitime les dommages iatrogènes prévus, qui se
produisent toujours au cours d'un traitement de santé, est le consentement du patient
/ blessé, après clarification préalable, et traite des limites pour obtenir ce
consentement et la disposition d'informations dans le contexte clinique. Elle défend
également que ce qui légitime les dommages iatrogènes prévisibles est la prise en
charge des risques de traitement par le patient, abordant la question des risques
inhérents à l'entreprise de santé et la concurrence entre les risques assumés par le
patient et l'hôpital, ce dernier étant responsable de la résultante des risques
extraordinaires imposés au patient, sur la base de la théorie du fortuit interne. Il
continue d'analyser la responsabilité civile pour les dommages iatrogènes résultant
de médicaments et de matériels / équipements médicaux et conclut que le médecin
et l'hôpital peuvent être tenus responsables des dommages iatrogènes à la fois en
raison d'échecs dans le processus d'obtention du consentement et en raison de
l'imposition de risques extraordinaires. au patient, sans rapport avec ceux inhérents
au traitement de santé lui-même.