Resumo:
A partir de uma transformação musical – marcada pela consolidação de um produto de consumo pop, a axé music – o carnaval de Salvador sofreu nas últimas duas décadas uma profunda alteração no seu caráter, que estabeleceu progressivamente novas relações entre os participantes da festa de rua, afastando-o do perfil de festa popular que ele havia adquirido entre o final da Segunda Guerra Mundial e os anos 70 do século passado. Nos últimos 25 anos, a explosão numérica do seu público e uma homogeneização de gostos e comportamentos dos seus participantes acompanharam uma série de inovações na utilização do espaço do carnaval, cujos traços mais importantes foram a sua expansão territorial e a corda ao redor dos blocos de trio elétrico que separa o público pagante do não-pagante. O presente trabalho busca demonstrar como, à margem da condução hegemônica deste processo, os homossexuais desenvolveram estratégias de apropriação do espaço capazes de influenciar o próprio carnaval da axé music e, para além do momento excepcional da festa, utilizá-las como um dinamizador das relações sociais cotidianas. Operando com uma inversão do modo de visibilidade do homossexual, e ao acompanhar o abandono geral das fantasias, a comunidade gay transformou a rua do carnaval em Salvador em lugar social de afirmação coletiva, agindo através
de uma estratégia que conectou os espaços freqüentados pelos homossexuais no cotidiano com os da festa, o que, por outro ângulo, articulou a permanência do caráter de rua da festa em meio a uma tendência hegemônica em liquidá-lo.